quarta-feira, 25 de abril de 2007

" Busque Amor novas artes, novo engenho"



Mosteiro de Alcobaça

Transepto

Túmulo de Inês de Castro


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Busque Amor novas artes, novo engenho

Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.


Luís de Camões

terça-feira, 24 de abril de 2007

"O fogo que na branda cera ardia"





Mosteiro de Alcobaça

Transepto

Túmulo de Inês de Castro


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O fogo que na branda cera ardia,



O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que na alma vejo.
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dois ardores se incendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve
Apagar seus ardores e tormentos
Na vista do que o mundo tremer deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela nave
Que queima corações e pensamentos.





Luís de Camões

domingo, 22 de abril de 2007

Estou aqui pousado não sofrendo mais os fios que irão abrir as tuas asas no meu corpo…"



Mosteiro de Alcobaça

Transepto

Túmulo do rei D. Pedro I

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Como pôde o rei prometido deste país verde deixar rolar aquele fatídico momento.

Como posso caminhar no chão do céu se ainda me trazes este fogo, assim tão apertado,
inquieto, cheio de saudade: os teus dedos desenhados no meu coração de ar …

Como poderei estar calmo se os meus olhos estão duros, nada podendo arrancar deste
incessante silêncio que te guarda…

Agora descubro-te nos botões que a noite em correria louca desaperta
no suor de uma estrela, colocada no mais fundo do Universo…

Estou aqui pousado, não sofrendo mais os fios que um dia irão abrir as tuas asas no meu corpo…

É o teu rosto branco que ainda espero todas as manhãs. A água que o rodeia diz-me
o quanto está perto e em mudança…

São estas vagas de gente bárbara que me conduzem até ao fim da minha mudez…

Sou Pedro I de Portugal e quero partir…


César

quarta-feira, 11 de abril de 2007

"Era pedra e sobre essa pedra Ergueu-se o templo do amor atroz"




Até ao fim do mundo


Era pedra e sobre essa pedra
Ergueu-se o templo do amor atroz.
Ele de fogo, ela a cordeira
Toda cordura chamando o algoz.

Songram as tubas: Inês é morta!
Em meigo muito transmuta-a o pranto
Do ermo amante que erra sozinho
No seu deserto de diamante.

Nem ar sangrento buscam seus olhos
Do corpo amado desfeitas pérolas;
E como fera coro os ossos
Da formosura que ao alto o espera

E em desatino da paixão lusa,
Perdida a alma que em Inês tinha,
O fim do mundo ficou esperando
Aos pés da morta, suo rainha.


Natália Correia

segunda-feira, 9 de abril de 2007

"Abre-se agora essa estrada,crescida nos treze tramos em alvenaria rectangular e fria da nave central de Alcobaça. "



Foto de Marques de Abreu
In A Arte em Portugal


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Castro movente em obsessiva serenidade



Abre-se agora essa estrada,
crescida nos treze tramos em alvenaria
rectangular e fria da nave central de Alcobaça.


Levada a esse transepto coalhado de luz rasa,
dos anos curando o ar num estalo vestalino.


Elevando, em nervuras e arcos torais,
a outra face da secreta obscuridade das palavras,
que no extradorso, em ripas e caibros
de carvalho e castanho, clama escondida .


Correndo há muito entre os fumos que a memória escoa,
numa combustão lenta que o céu teima em alimentar
mas a carne esfria.


Tentando agarrar, com os dentes, a fina película de luz
que a mansidão deste caminho, ao dissolver-se, deixa moldar,

indiferente ao rasto de lumes condensados
que no entardecer o céu, ao fermentar, evapora.


Onde o tempo trama a sua empoalhada teia,
as varas difusas, incorporadas neste chão,
percutem, no mês primeiro, a manhã igual

devorada pelos veios brancos, antes de aço fino,
que aqui hoje edificam a sua ausência.

Insondável como o silêncio que um só olhar jacente povoa.


O nome, liberado num recôndito bocejo,
que os mármores empalhados,
o seu corpo abotoam,

não deixam transparecer.


As lágrimas que os opalinos ralos da fronte humedecida esvaem.


O abismo rasgado nos oblíquos filamentos das frestas.


Os murmúrios dum País embarcado no Mondego,
movente, em obsessiva serenidade …




Augusto Vieira (César )

domingo, 8 de abril de 2007

"Tu és o nó de sangue que me sufoca.Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões da madeira fria. És uma faca cravada na minha vida secreta.






(a carta da paixão)


Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.



Herberto Helder
PHOTOMATON & VOX
Assírio & Alvim1995

“ São as mais estranhas memórias: as que descem pela parede, como a humidade dos invernos, e se deixam apanhar com os dedos "



LUZ

São as mais estranhas memórias: as
que descem pela parede, como a humidade dos
invernos, e se deixam apanhar com os dedos,
para que as erga à luz da lâmpada. Aí brilham
devagar. Um halo de pirilampo
envolve-as. É como se a noite as transformasse
num cristal secreto: e o teu rosto brotasse
de dentro da sua luz.


Nuno Júdice,
Pedro, Lembrando Inês, 2001
Publicações D. Quixote