
De Ruy Belo em
A Margem da Alegria:(...)
Que tudo o mais se esqueça na presença do mosteiro de santa maria de alcobaça
cerca do ano mil cento e cinquenta e dois começado a construir para depois
ver afluir de claraval e de tarouca essa gente de tanto mas tão pouca
os monges de cister de bernardo o amigo de deus mas inimigo de abelardo
É a maior igreja portuguesa e alicerça essa grandeza
nas três naves que no silêncio talha com a precisão de uma navalha
e na grande desproporção entre a pouca largura e a altura
O mistério dos mares tenebrosos tem ali silêncios rasos
navegantes de pé entre o dossel do céu e a cama da maré
jazem serenos hoje nessa lousa onde o tempo apenas pousa
e só com a minha lâmina de aço língua de toledo os ameaço
No túmulo deitada inês parece a própria placidez
ela que em vida ouvindo alguém chamar
julgava respirar esse cheiro envolvente português
dos laranjais e jamais a nave donde nunca mais
havia de sair não já para criança inaugurar
o dia a dia o vasto espaço onde cada folha
dos plátanos e até canas e oliveiras
valem humildemente mais do que a melhor palavra minha
mas sim ver só o sol inevitável renascer
da morte e vir tal como ela de castela com o vento
que vindo donde vêm como vêm
nessas vozes fechadas como pedra até esse país que há muito herda
a fala de um mutável mar que só sobre o seu som instável é capaz de edificar
terra de um lado águas do mar do outro o que leva o povo a dizer
que portugueses e espanhóis não os quer deus juntos um dia ver
e vento e casamento vindos de onde vêm
o povo em portugal sempre teve por mal
inês mais pedra que osso nunca ela um dia concebeu ou quis
esses ossos não há muito ainda finos dedos
somente porque de repente à morte dados
inês jamais sonhou ser tão feliz como apagada agora como giz
e num momento sempre jaz por fim em paz
indiferente ao sol segregado na nave esse sol tão expancivo sobre a neve
na névoa precursora do anoitecer e
dos instantâneos monumentos levantados sobre a água
pássaro talvez não tanto pelo voo como pela concentração de uma aparente pequenez
inês ave que vindo o derradeiro outono
enfim acha repouso no regaço do destino
como em mãos de um menino um pardal assustado
que os abertos céus sulcou e tão pouco voltou
como se nunca houvesse sido mais do que possível
naquela posição tão imutável e tão impassível
como o que adere à terra como um simples mineral
Que sei pergunta ela para sempre imóvel
no túmulo de pedra inamovível que sei eu desse homem tão instável
mais triste e mais sozinho quanto mais alegre e rodeado
que ao dar-me um outro nome como que me deu um novo ser
e a quem toda me dei como se dá em parte
na arte alguém mais que no amor
Que sei de pedro esse homem de palavras
esse inventor de nomes com certeza mais reais
após haverem sido mais criados do que as próprias coisas
Que são duas as lousas nem sequer o sabe
nem na cabeça do baldequino dela cabe o modo de saber certo e definitivo
que pedro mais que rei foi permanentemente fugitivo
e fugiu mais de si mesmo que da terra ao da grei
Eu canto os amores e a morte a apoteose e a sorte
dessa que tão horizontal em pedra jaz e esse pedro neto do trovador de quem se diz
que sempre dom dinis fez o que quis
O círculo amoroso cerca a sociedade
mas por fim a cidade é vencedora do amor
e há serenidade na cidade
Na igreja abacial de santa maria de alcobaça
os que em vida amaram para sempre se juntaram
(...)
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A Abadia de Alcobaça, reconhecida como Património Mundial pela UNESCO, é uma das mais importantes abadias cistercienses europeias, atendendo ao seu estado de conservação e à sua arquitectura, símbolo de Cister. Fundada em 1153, por doação de D. Afonso Henriques a Bernardo de Claraval, a actual abadia só começou a ser construída em 1178. A Igreja, iniciada como era prática corrente pela cabeceira, com três naves à mesma altura, o transepto de duas naves e o deambulatório, formam um conjunto que impressiona pela simplicidade, grandeza e austeridade. É a maior e primeira grande obra do gótico primitivo português, depois substancialmente alargada e enriquecida com as sucessivas doações reais. Em 1308, D. Dinis faz construir o Claustro do Silêncio, acrescentado de um piso já no reinado de D. Manuel, que mandou também construir a chamada Sacristia Manuelina, obras encomendadas ao arquitecto João de Castilho. A partir do Abade Comendatário Cardeal D. Henrique começam as grandes alterações espaciais, com a construção do Palácio Abacial no extremo Norte da Ala Norte e do Claustro do Cardeal, seguindo-se, no séc. XVII, a Hospedaria, a primitiva Sala dos Reis e o Noviciado. Notável é o Relicário e o Altar da Morte de S. Bernardo dos finais do séc. XVII, em terracota, assim como a grande cozinha do séc. XVIII. A Sala dos Túmulos, em neo-gótico, guarda os túmulos de várias rainhas e príncipes. No transepto da Igreja encontram-se duas das mais belas obras da arquitectura tumular do séc. XIV: os túmulos de D Pedro e D. Inês de Castro.
O Mosteiro de Alcobaça no sítio do IPPAR